segunda-feira, 27 de março de 2017




Ruas sem saída


Caridade vivia no fundo da rua
lá onde ninguém ia,
rua vazia, rua vadia.
Rua perdida no meio do nada
de morte abraçada.
Rua estilhaçada.

Numa noite de inferno, 
cinzenta e molhada
chega à tal viela,
entra p’la janela,
o vento Suão, 
anunciando o  verão.

Caridade sorriu, 
medrou e saiu para o abraçar.
Ele assim o fez:
Afagou-lhe a tez,
soprou-lhe ao ouvido
belas esperanças
sonhos e mudanças,
no fundo da rua.

Recetiva e nua
deixa Caridade
Suão embalar
seu corpo ondulante.
Bailando flutua,
sorri para a lua
parte p’ra voltar.

Suão carinhoso
terno e dengoso
traz-lhe o que é preciso,
para alegre a ver!
Um amor assim
caridade em mim,
o que for em vós,
cheiro de alecrim
flor de jasmim
é pátria dos sós.

E ao fundo, a rua,
lá onde ninguém ia,
não mais foi vazia.
Escolheu ser vadia
e no meio do nada
tudo ser um dia.

2014.01.06


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017


Primaveras Vazias

O canto das andorinhas-dos-beirais anuncia a primavera.
O homem ocupado, passa, alheio à vida preenchida de vazios. As andorinhas voam para os ninhos, há muito minuciosamente construídos, onde outrora nasceram e onde os novos petizes reclamam por alimento.
O homem ocupado indigna-se perante o lixo por baixo do ninho das andorinhas, mesmo à entrada da casa, que é sua, ignorando todas as primaveras. Irritado vai buscar uma vassoura e varre dali a vida e os seus ritmos, sábios. Satisfeito com este ato heróico, o homem, alheio à vida, toma o seu rumo, vazio.


As andorinhas voam confusas ao redor do lugar, agora sem vida. Ali permanecem em voos cruzados, certeiros e delicados, fazendo-se ouvir em cantos estridentes, doloridos. A primavera poética, cala-se, dando lugar ao mais gélido inverno.

domingo, 22 de janeiro de 2017



Na era dos Trump(iqueiros)

Retirem-se as vendas 
eliminem-se as cegueiras
vistam-se as vestes da coragem
alimentem-se as consciências de lucidez.
Derrubem-se as fronteiras
do medo, do ódio, da ignorância.
Cozinhem-se as diferenças
no caldeirão da aceitação e do respeito
Envolvam-se estes valores maiores 
em nuvens de altruísmo
Eduquem-se os petizes para o amor,
para a empatia

E nesta construção de Humanidade feita
como pode o incauto sobreviver à sua ilusão maior, 
que de diferenças se alimenta?


2017.01.21



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016



Não me falem de Natal


Não me falem de Natal
Enquanto Natal não houver, no coração dos homens.
Enquanto lágrimas de horror, de medo, de desespero, molharem faces.
Enquanto uma criança der à praia, morta.
Enquanto bombas estilhaçarem corpos, esperanças.
Enquanto se desventre a Terra, em ambições selvagens.
Enquanto se escureçam céus de nuvens sujas, poluindo vidas.
Enquanto a floresta nada mais for que um negócio, cego à condição humana.
Enquanto o medo e a fome prostrarem irmãos, senão de sangue,
de condição.
Enquanto houver gritos de revolta, agrilhoados.
Enquanto uma bala certeira derramar sangue, por ódio, vingança
e todo o tipo de ignorância.
Enquanto reinar a desigualdade entre homem e mulher,
entre indivíduos da raça humana (como se de diferentes raças de tratasse).
Enquanto o poder torne selvagem, quem o detém.
Enquanto se desdenhar o bem, como valor maior.
Enquanto chacinas houver, em nome da incessante procura do saber,
de crenças obscuras, do lucro sem fronteiras, sem limites.
Enquanto rios e mares sofrerem de exploração desmesurada,
ameaçando espécies.
Enquanto o homem, estúpido, ignorante, selvagem,
predador incansável, explorador sem limites, sorrir.

E se algum de vocês me falar de Natal, em prantos de profundo sofrimento,
talvez o meu olhar se vos dirija, na busca de um Natal, em vós.

Até lá, não me falem de Natal.









sexta-feira, 18 de novembro de 2016



Fim de tarde

A noite cai sobre a praia. Espero-a. Ela, e tudo o que o seu chegar contêm. No aconchego do ar quente, trazido pelo vento, observo o horizonte que numa beleza exuberante, se mostra. O mar estende-se até si e funde-se em cores fortes, quentes e sombrias, deixadas pelo sol que, de mansinho, nos vai mostrando, sem pressas, o seu lado romântico, tranquilo, num convite ao amor, à poesia e ao que de mais belo pode sentir quem o contempla. A sua imensa beleza toca o mar com as cores da tarde finda, da noite vinda, deixando o brilho, que até ali foi seu, à elegante lua que se ergue no céu, curvilínea.
Na amplitude do momento em que tudo faz sentido, quebram-se todas as fronteiras. As certezas dão lugar à liberdade. Deixo de ser, sendo maior do que tudo aquilo que em mim possa caber. Na imensidão do horizonte, fundo-me com a natureza. Desapareço e conheço a paz.

2013.08.10
Carcavelos

21h

segunda-feira, 1 de junho de 2015





Meditações sobre a Palavra

Contempla a poesia que há em cada palavra
Dita, escrita ou imaginada, no lugar certo.
O lugar onde se exprime o encoberto
Onde se encobre o descoberto
O lugar onde o sorriso quebra a tristeza
E o mundo encanta a vida, de beleza.

Contempla a força que há em cada palavra
Dita, escrita ou imaginada, no tempo certo.
O tempo em que o amor longínquo chega perto
O tempo em que a fraqueza descobre a força
Em que a primavera rompe invernos,
E o céu, luminoso e calmo, derrota infernos.

Todas as palavras são belas e horrendas
Pedras arremessadas, oferendas
Cantos de amor ou de dor.

Ama as palavras, todas elas,
Quem brinca em jardins de letras
Quem ama todas as borboletas
Não porque são belas, mas por que existem
Na poesia, na vida, em todos os lugares
Onde as palavras lembram
E as borboletas
(em contemplações estéticas)
Nos fazem esquecer.

2015.05.13

Maria Amaral

domingo, 28 de setembro de 2014





Humanização da Palavra



Humanidade!
Fonte de vida cruel, negra, fútil, (des)humana...
Grita! Faz ouvir a tua voz: a do amor,
aquela que esqueceste
na luta pela sobrevivência da alma.
Primeira linguagem, primeiro pilar,
suporte de todos os capazes de amar.
Grita baixinho, aos ouvidos surdos
aos corações sofridos, fechados,
empedernidos, apavorados,
sussurra-lhes o silêncio do bem-querer,
para além das palavras.
Humaniza-os com o teu sorriso.
Retira-lhe os ódios, as invejas, as distâncias
Tudo o que os separa, isola, endoidece,
e suavemente, muito suavemente,
para que não se assustem com tão grande milagre,
(semente da santidade),
deixa no seu rasto, decora o seu caminho
com os aromas da alegria,
com a bondade do verdadeiro amor,
com a humildade do verdadeiro perdão,
com a equanimidade da verdadeira empatia.
E, com a coragem do verdadeiro guerreiro,
dá tudo o que tens, porque não te pertence,
a quem tudo necessita, porque se vê pobre.
Na palavra ou ausência dela sê quem és,
Humano!
Para além disso habita o profano
Tu, és sagrado.



2014.09.24