domingo, 22 de janeiro de 2017



Na era dos Trump(iqueiros)

Retirem-se as vendas 
eliminem-se as cegueiras
vistam-se as vestes da coragem
alimentem-se as consciências de lucidez.
Derrubem-se as fronteiras
do medo, do ódio, da ignorância.
Cozinhem-se as diferenças
no caldeirão da aceitação e do respeito
Envolvam-se estes valores maiores 
em nuvens de altruísmo
Eduquem-se os petizes para o amor,
para a empatia

E nesta construção de Humanidade feita
como pode o incauto sobreviver à sua ilusão maior, 
que de diferenças se alimenta?


2017.01.21



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016



Não me falem de Natal


Não me falem de Natal
Enquanto Natal não houver, no coração dos homens.
Enquanto lágrimas de horror, de medo, de desespero, molharem faces.
Enquanto uma criança der à praia, morta.
Enquanto bombas estilhaçarem corpos, esperanças.
Enquanto se desventre a Terra, em ambições selvagens.
Enquanto se escureçam céus de nuvens sujas, poluindo vidas.
Enquanto a floresta nada mais for que um negócio, cego à condição humana.
Enquanto o medo e a fome prostrarem irmãos, senão de sangue,
de condição.
Enquanto houver gritos de revolta, agrilhoados.
Enquanto uma bala certeira derramar sangue, por ódio, vingança
e todo o tipo de ignorância.
Enquanto reinar a desigualdade entre homem e mulher,
entre indivíduos da raça humana (como se de diferentes raças de tratasse).
Enquanto o poder torne selvagem, quem o detém.
Enquanto se desdenhar o bem, como valor maior.
Enquanto chacinas houver, em nome da incessante procura do saber,
de crenças obscuras, do lucro sem fronteiras, sem limites.
Enquanto rios e mares sofrerem de exploração desmesurada,
ameaçando espécies.
Enquanto o homem, estúpido, ignorante, selvagem,
predador incansável, explorador sem limites, sorrir.

E se algum de vocês me falar de Natal, em prantos de profundo sofrimento,
talvez o meu olhar se vos dirija, na busca de um Natal, em vós.

Até lá, não me falem de Natal.









sexta-feira, 18 de novembro de 2016



Fim de tarde

A noite cai sobre a praia. Espero-a. Ela, e tudo o que o seu chegar contêm. No aconchego do ar quente, trazido pelo vento, observo o horizonte que numa beleza exuberante, se mostra. O mar estende-se até si e funde-se em cores fortes, quentes e sombrias, deixadas pelo sol que, de mansinho, nos vai mostrando, sem pressas, o seu lado romântico, tranquilo, num convite ao amor, à poesia e ao que de mais belo pode sentir quem o contempla. A sua imensa beleza toca o mar com as cores da tarde finda, da noite vinda, deixando o brilho, que até ali foi seu, à elegante lua que se ergue no céu, curvilínea.
Na amplitude do momento em que tudo faz sentido, quebram-se todas as fronteiras. As certezas dão lugar à liberdade. Deixo de ser, sendo maior do que tudo aquilo que em mim possa caber. Na imensidão do horizonte, fundo-me com a natureza. Desapareço e conheço a paz.

2013.08.10
Carcavelos

21h

segunda-feira, 1 de junho de 2015





Meditações sobre a Palavra

Contempla a poesia que há em cada palavra
Dita, escrita ou imaginada, no lugar certo.
O lugar onde se exprime o encoberto
Onde se encobre o descoberto
O lugar onde o sorriso quebra a tristeza
E o mundo encanta a vida, de beleza.

Contempla a força que há em cada palavra
Dita, escrita ou imaginada, no tempo certo.
O tempo em que o amor longínquo chega perto
O tempo em que a fraqueza descobre a força
Em que a primavera rompe invernos,
E o céu, luminoso e calmo, derrota infernos.

Todas as palavras são belas e horrendas
Pedras arremessadas, oferendas
Cantos de amor ou de dor.

Ama as palavras, todas elas,
Quem brinca em jardins de letras
Quem ama todas as borboletas
Não porque são belas, mas por que existem
Na poesia, na vida, em todos os lugares
Onde as palavras lembram
E as borboletas
(em contemplações estéticas)
Nos fazem esquecer.

2015.05.13

Maria Amaral

domingo, 28 de setembro de 2014





Humanização da Palavra


Humanidade
Fonte de vida cruel, negra, fútil, (des)humana...
Grita! Faz ouvir a tua voz: a do amor,
aquela que esqueceste
na luta pela sobrevivência da alma.
Primeira linguagem, primeiro pilar,
suporte de todos os capazes de amar.
Grita baixinho, aos ouvidos surdos
aos corações sofridos, fechados,
empedernidos, apavorados,
sussurra-lhes o silêncio do bem-querer,
para além das palavras.
Humaniza-os com o teu sorriso.
Retira-lhe os ódios, as invejas, as distâncias
Tudo o que os separa, isola, endoidece,
e suavemente, muito suavemente,
para que não se assustem com tão grande milagre,
(semente da santidade),
deixa no seu rasto, decora o seu caminho
com os aromas da alegria,
com a bondade do verdadeiro amor,
com a humildade do verdadeiro perdão,
com a equanimidade da verdadeira empatia.
E, com a coragem do verdadeiro guerreiro,
dá tudo o que tens, porque não te pertence,
a quem tudo necessita, porque se vê pobre.
Na palavra ou ausência dela sê quem és,
Humano!
Para além disso habita o profano
Tu, és sagrado.


2014.09.24

quarta-feira, 13 de agosto de 2014





Indicador


Vem, diz-me quem sou.
Atira-me todas as pedras,
aquelas, que dizes, feitas de amor,
aquelas que arrancas da calçada, descalça,
para te proteger,
de ti.

Vem, aponta-me o dedo,
esse, que teima em não se virar, para ti.
Para quê? Nada tem a apontar, de ti.

Não, não és perfeito, afirmas,
chavões da vida em que te enrolas,
te cobres, te tornas no “único”.

Vem, fala de mim, longe de mim
Não digas nada, de mim, a mim.
Sei. Não me queres magoar!
Gostas de mim e nisto calas
a coragem, ou falta dela.

Dizes de mim, sim!
Sabes de mim, sim!
Sabes quem sou, sim!
Falas de mim, sim!
Longe de mim, sim!
Nunca p’ra mim, sim!

Vem.
Tu, aquele que sabe de si,
tu, aquele sem dedos apontados,
e dos defeitos  que em si conhece,
difíceis de colocar em palavras…

Tu, Ego do mundo (des) humano,
habitante pleno de um caos profano,
vem, mostra-te,
despe-te, se és capaz!

TU

Não, não venhas.
Bastas-te aqui, em mim.



 2014.08.13
Rosa Bordeaux




segunda-feira, 5 de maio de 2014



Sonhos de prata e ouro





Salpico de prata e ouro o nosso amor

Para o tornar humano.
A prata dá-lhe a beleza da simplicidade
e o valor da moderação.
O ouro, a exaltação das coisas raras,
a grandeza do exuberante
e a riqueza da irradiação plena
de mil sois celestes.


Pinto de prata e ouro os meus sonhos,
os nossos sonhos,
como o poeta embala a poesia
como o pintor acaricia a tela vazia,
em tons de amor e dor


E, um dia, quando este amor,
(sonhado e vivido) 
morrer, porque partimos (eu e tu)
na preciosidade 
do incontornável sonho cumprido,
possa, 
na memória dos que connosco privaram,
brilhar ainda 
em ouro e prata
o sonho deste amor,pintado e sonhado 
na tela da vida.

2014.04.30