sexta-feira, 18 de novembro de 2016



Fim de tarde

A noite cai sobre a praia. Espero-a. Ela, e tudo o que o seu chegar contêm. No aconchego do ar quente, trazido pelo vento, observo o horizonte que numa beleza exuberante, se mostra. O mar estende-se até si e funde-se em cores fortes, quentes e sombrias, deixadas pelo sol que, de mansinho, nos vai mostrando, sem pressas, o seu lado romântico, tranquilo, num convite ao amor, à poesia e ao que de mais belo pode sentir quem o contempla. A sua imensa beleza toca o mar com as cores da tarde finda, da noite vinda, deixando o brilho, que até ali foi seu, à elegante lua que se ergue no céu, curvilínea.
Na amplitude do momento em que tudo faz sentido, quebram-se todas as fronteiras. As certezas dão lugar à liberdade. Deixo de ser, sendo maior do que tudo aquilo que em mim possa caber. Na imensidão do horizonte, fundo-me com a natureza. Desapareço e conheço a paz.

2013.08.10
Carcavelos

21h

segunda-feira, 1 de junho de 2015





Meditações sobre a Palavra

Contempla a poesia que há em cada palavra
Dita, escrita ou imaginada, no lugar certo.
O lugar onde se exprime o encoberto
Onde se encobre o descoberto
O lugar onde o sorriso quebra a tristeza
E o mundo encanta a vida, de beleza.

Contempla a força que há em cada palavra
Dita, escrita ou imaginada, no tempo certo.
O tempo em que o amor longínquo chega perto
O tempo em que a fraqueza descobre a força
Em que a primavera rompe invernos,
E o céu, luminoso e calmo, derrota infernos.

Todas as palavras são belas e horrendas
Pedras arremessadas, oferendas
Cantos de amor ou de dor.

Ama as palavras, todas elas,
Quem brinca em jardins de letras
Quem ama todas as borboletas
Não porque são belas, mas por que existem
Na poesia, na vida, em todos os lugares
Onde as palavras lembram
E as borboletas
(em contemplações estéticas)
Nos fazem esquecer.

2015.05.13

Maria Amaral

domingo, 28 de setembro de 2014





Humanização da Palavra


Humanidade
Fonte de vida cruel, negra, fútil, (des)humana...
Grita! Faz ouvir a tua voz: a do amor,
aquela que esqueceste
na luta pela sobrevivência da alma.
Primeira linguagem, primeiro pilar,
suporte de todos os capazes de amar.
Grita baixinho, aos ouvidos surdos
aos corações sofridos, fechados,
empedernidos, apavorados,
sussurra-lhes o silêncio do bem-querer,
para além das palavras.
Humaniza-os com o teu sorriso.
Retira-lhe os ódios, as invejas, as distâncias
Tudo o que os separa, isola, endoidece,
e suavemente, muito suavemente,
para que não se assustem com tão grande milagre,
(semente da santidade),
deixa no seu rasto, decora o seu caminho
com os aromas da alegria,
com a bondade do verdadeiro amor,
com a humildade do verdadeiro perdão,
com a equanimidade da verdadeira empatia.
E, com a coragem do verdadeiro guerreiro,
dá tudo o que tens, porque não te pertence,
a quem tudo necessita, porque se vê pobre.
Na palavra ou ausência dela sê quem és,
Humano!
Para além disso habita o profano
Tu, és sagrado.


2014.09.24

quarta-feira, 13 de agosto de 2014





Indicador


Vem, diz-me quem sou.
Atira-me todas as pedras,
aquelas, que dizes, feitas de amor,
aquelas que arrancas da calçada, descalça,
para te proteger,
de ti.

Vem, aponta-me o dedo,
esse, que teima em não se virar, para ti.
Para quê? Nada tem a apontar, de ti.

Não, não és perfeito, afirmas,
chavões da vida em que te enrolas,
te cobres, te tornas no “único”.

Vem, fala de mim, longe de mim
Não digas nada, de mim, a mim.
Sei. Não me queres magoar!
Gostas de mim e nisto calas
a coragem, ou falta dela.

Dizes de mim, sim!
Sabes de mim, sim!
Sabes quem sou, sim!
Falas de mim, sim!
Longe de mim, sim!
Nunca p’ra mim, sim!

Vem.
Tu, aquele que sabe de si,
tu, aquele sem dedos apontados,
e dos defeitos  que em si conhece,
difíceis de colocar em palavras…

Tu, Ego do mundo (des) humano,
habitante pleno de um caos profano,
vem, mostra-te,
despe-te, se és capaz!

TU

Não, não venhas.
Bastas-te aqui, em mim.



 2014.08.13
Rosa Bordeaux




segunda-feira, 5 de maio de 2014



Sonhos de prata e ouro





Salpico de prata e ouro o nosso amor

Para o tornar humano.
A prata dá-lhe a beleza da simplicidade
e o valor da moderação.
O ouro, a exaltação das coisas raras,
a grandeza do exuberante
e a riqueza da irradiação plena
de mil sois celestes.


Pinto de prata e ouro os meus sonhos,
os nossos sonhos,
como o poeta embala a poesia
como o pintor acaricia a tela vazia,
em tons de amor e dor


E, um dia, quando este amor,
(sonhado e vivido) 
morrer, porque partimos (eu e tu)
na preciosidade 
do incontornável sonho cumprido,
possa, 
na memória dos que connosco privaram,
brilhar ainda 
em ouro e prata
o sonho deste amor,pintado e sonhado 
na tela da vida.

2014.04.30

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Mundo da Lua


Levantou-se cedo naquele dia. Pela ampla janela do quarto entrou a aurora, sorridente, anunciando a vinda do rei Sol. Como era bela a natureza! Tal entusiasmo levou-o a sair para o pequeno terraço que circundava a casa, decisão premiada com a visão da fugidia e bela Lua, brilhante e calma, ainda presente, talvez na expectativa de se cruzar com o tão amado astro, luminoso e intenso. O céu estava limpo, sem nuvens, aquelas que por não lhe pertencerem, podiam ser ausentes. Tomou o café ali mesmo, saboreando-lhe o aroma e toda a harmonia envolvente. Há cafés e cafés!
Tudo o que tem um início, tem um fim. Assim, como por magia, uma espécie de movimento do maior para o menor, trá-lo a outra faceta do tempo presente. É hora! Hora de recolher. Espanta-se com tal expressão. Por que razão se sentia a recolher? Aquela manhã estava estranha, muito estranha…
O automóvel espera-o à porta de casa, como um fiel servidor, discreto e dispendioso. Com a ignição vem a primeira novidade do dia: alguém matou alguém. O coração queixa-se, discreto, como um fiel, e para sempre, servidor. A hora marca o que tem de ser feito, é preciso continuar. O rádio anuncia, uma após outra, notícias de medos, roturas, embustes e trânsitos infernais, como é normal. Tudo decorre como o esperado, excepto a visão duma janela, que ficou para trás mas ali continua, teimosa, mostrando o sentido inverso. Ali, é preciso continuar, como é normal.
Olha pelo vidro do carro e lá está a Lua, ainda, provocadora. Olha-a, fixa-a. Em contornos esbatidos parece querer fundir-se com o céu. De repente uma qualquer sintonia estabelece-se. É no centro do peito que a sente. Vê-se a estender a mão à Lua, que se faz tão perto. Como será olhar a terra lá de cima? Sim, já viu fotografias da NASA, com excelente resolução mas nunca como agora viu a terra.
É lá de cima que olha a sua casa no universo, um pequeno ponto, azul, brilhante. Sente-se pequeno demais face a tanta beleza e serenidade. O corpo está mais leve, como se a fronteira que sempre acreditou existir entre corpo e o exterior se quebrasse e uma outra noção de liberdade, de interligação com tudo, se estabelecesse. Cores e formas mostram-se como são e tudo parece estar no lugar certo, tudo faz sentido.
Apetece-lhe abraçar a terra, acolhe-la no seu regaço e protege-la. No mesmo instante sente que o faz, que pode, e quer, acolher nos braços aquela mãe, agora num horizonte feito de não distância. O tamanho de que é feito transforma-se. É, sem tamanho.
Com a Terra em si uma dimensão desconhecida descobre-se. Reconhece um estado de não separação: Ele, a Terra, o Espaço, a Lua, o Universo, não são mais “Ele, a Terra, o Espaço, a Lua, o Universo”. É na não nomeação que reconhece o fluxo de harmonia sem tempo nem espaço, sem isto ou aquilo, seu eu e outro. A luz veste tudo o que inter-é.
De repente a Terra mostra-se de novo. Tinha voltado à separação. Ainda assim o abraço mantinha-se. A protecção que lhe dedicava era ainda insuficiente. Aconchegou-a mais e mais, a si, como que a revisitar o estado de não separação sabido. Olhou bem para aquele planeta tão frágil. Olhou-o nos olhos. O coração queixou-se, quando uma lágrima rolou por uma encosta. Atrás dela muitas outras lhe seguiram os passos. A Terra chorava.
O coração queixa-se. Ali, no mundo da Lua, volta-se também para ele. Sente-lhe o batimento alterado. Não é só a Terra que chora. Aquele órgão vital, sensível, associa-se ao que de repente os seus olhos podem observar. A Terra chora seus filhos perdidos, as entranhas rasgadas, estripadas, os céus poluídos.
Ali, de mão dada com a Lua, pode ver todo o sofrimento de um planeta que luta por sobreviver.
Vê homens de coração de oiro, empedernido por ele, crianças famintas de alimentos vários, guerras cujas armas matam esperanças. Vê um corre-corre, desenfreado e a inanição sem volta. Vê montanhas e florestas estropiadas, mares e rios cobertos de sangue, gentes fugindo com nada nas mãos e terror no coração. Vê belas obras espelhadas elevando ao céu as altas finanças, pastas de couro tingidas de morte, mentiras, traições, egoísmo extremo. Vê a Terra jurada de uma finitude precoce. Vê a separação fatal entre os reinos dos homens dos animais e dos vegetais. Corre-se para ter mais, muito e rapidamente. Morre-se por não se chegar a nada.
Subitamente, sente-se abraçado pelo Lua. Um raio de sol atinge a Terra alumiando-a. O coração alegra-se e uma vontade de fazer diferente invade-o.
O som de uma buzina e a voz alterada da mulher chamam-lhe atenção. Tinha deixado cair o vermelho sem se mover. Sorriu. O sol brilhava, o dia estava lindo. Finalmente arrancou. A mulher, a seu lado sentada, comenta perplexa que estava a tomar o caminho errado. Era já tarde e tinham que abrir a empresa. Olhou-a sorrindo dizendo-lhe que naquele dia não, não abriria a empresa. Apetecia-lhe parar, ir até ao mar. Olhar a natureza, contempla-la.
Almoçaram os dois à beira-mar. A companheira de vida quer saber o que se passa com ele, naquele dia, pois “parecia não estar cá”. Por onde andava?!
Sorriu-lhe e respondeu “ no mundo da lua!”.
Aldora Amaral

2013.11.30

domingo, 16 de fevereiro de 2014





É preciso cuidar do amor


É preciso cuidar do amor
Com muita perícia,
e alguma malícia.
Tratá-lo com pinças,
com luvas, caricias
e muita emoção.
Enxugar uma lágrima
em véu de cambraia,
rasgar um sorriso,
no sorriso amado.
Mimar o bastante
o amigo, amante,
em abraços doces
beijos escaldantes
noites mal dormidas
manhãs aquecidas
em corpos suados.
Do amor fazer
rios de prazer
sóis anunciados.
E quando a penumbra
ensombra o amor
descobrindo a dor
no par desarmado,
flores e doçura
abraços, ternura
adubam a terra
onde o amor espera
por ser relembrado.
No jogo do amor, a vida
se faz colorida.
Cumpre-se o desejo
de feliz se ser.
Na alegria, ou na dor,
é preciso cuidar do amor.

2014.02.12