domingo, 24 de dezembro de 2017




Uma Visão de Natal

 Neste Natal quero acordar e ver meninos de caracóis, brincando em jardins
e nesses jardins quero ver homens que olham as flores
e notam que às folhas velhas se sucedem as novas
e que há vida, nascimento e morte, em todos os jardins do mundo.

Quero acordar e ver as águas repletas de vidas.
e homens a nadar dentro delas, respeitosamente,
ignorando iscos e redes, em atos sagrados de amor profundo.
Quero ver animais em verdes prados, livres de grilhões e da dor da escravidão
cuidados por homens livres, de coração empático, como o de Jesus.

Quero ver ruas repletas de sorrisos (também entre desconhecidos).
Quero ver florestas revigoradas, com árvores de pé até á morte,
e mesmo depois da morte.
Quero aí ver homens em contemplação,
ouvindo vozes inaudíveis, aos que olham sem ver.

Quer ver o Natal em todos os rostos.
Quero ver corações escancarados, sensíveis,
de onde o néctar divino da coragem cristã se verte, em contágios de infinita paz.
Quero acreditar nessa visão mais profunda e numa humanidade mais capaz.
Quero acreditar que os filhos de Deus se elevam aos céus do despertar
e deixam pra trás a inferioridade maior dos ódios,
dos interesses egoístas, da gélida indiferença,
Quero ver Jesus nascido, criado, vivido, em cada um que se diz cristão.

E vendo tudo isto poderei partir em paz na direção de um qualquer céu

onde conto ver meninos de caracóis, brincando em jardins. 

Dez 2017

quarta-feira, 29 de novembro de 2017



A PRECIOSA VIDA HUMANA


Nasci há 62 anos!

Que ventos foram esses
que me trouxeram a este mundo,
numa pequena vila portuguesa
onde a água nasce terapêutica
e a vegetação da Serra do Buçaco
calça a pitoresca Luso
de belas e pequenas ruelas?

Que ventos foram esses
que me levaram até àquela família,
(a que passei a chamar minha)
à qual vim acrescentar
conteúdos e formas
alegres e dolorosas
como é apanágio dos seres
nesta dimensão da existência?

Que ventos foram esses
que aqui me conduziram,
desnorteados,
e que um dia daqui
me irão levar?

Terá esta
(a que chamo eu)
 a diligência e a disciplina necessárias
para transformar essa ventania
imaginária
na brisa sábia do despertar
e assim cumprir
esta preciosa vida humana?



domingo, 19 de novembro de 2017




A GRATIDÃO DOS QUE NADA SABEM

Brincavas naquele parque, que nunca esquecerei. Olhaste-me, sorrindo como ninguém o havia feito. Vi no teu rosto a simplicidade e empatia que os grandes seres irradiam. Quem és tu? Perguntaste.
Face a tal espontaneidade o desconcerto tudo em mim invade e não soube que dizer.
Quem sou eu?!
Ali fiquei, mudo, parado, sem noção de tempo e espaço, atirado para margens sombrias. Em mim me despedaço na verdade que irradias.
Quem sou eu?!
Não te respondi, por não ter resposta alguma perante ti, perante mim. Não insististe, sabiamente. Apenas sorriste, como quem festeja a vida, alegre, colorida.
Pegaste-me na mão (com teu avô na outra). Levaste-me a ver os girassóis, parando o que chamo minha vida, egoísta, solitária, corrida. Deixei-me levar, nem sei porquê. Tinhas razão! Como eram belos os girassóis, aqueles que nunca ali haviam estado, para mim…
Desse dia em diante vi-te amiúde no caminho do parque. “ É trissomia 21” alguém me informou sem que o perguntasse.
Que importa o que é, que importa quem sou, se somos a cada encontro a alegria e a verdade da vida, a beleza que há nesse espaço aberto ao que vier, de braços estendidos ao sentir, ao estar.
Obrigada menina do parque, pela poesia que encontro a cada passo do caminho, rodeado de pássaros e margaridas, onde me descentro, caminho adentro, a cada manhã de domingo.
Hoje, quando encontro os teus olhos sei quem não sou, na revisitação do que em mim despertaste, irremediavelmente: Um estar sem tempo, um ser vazio de mim, onde vive a beleza do mundo, onde o coração se escancara. O lugar da tua verdade que hoje é também a minha.

Menina do parque,
menina mestre,
jardim que cruzei nos caminhos da vida,
bênção acedida,
rosa colorida,
mestre de uma vida,
da qual nada sei.

Obrigada menina do parque.



30.03.2017

sábado, 11 de novembro de 2017



Que sabes tu do amor?


Não me venhas dizer que amas, se feres,
se sentes que possuis a coisa amada
se a pensas para sempre apaixonada
se crês na permanência do que queres.
Querer para sempre é coisa ausente
como ausente é ser, ser imortal.
Não queiras transformar a natureza
não queiras retirar toda a riqueza
ao que na vida é coisa universal.
Remove de ti toda a cegueira
sê feliz em bem-querer, por querer bem,
sê um livro aberto, uma bandeira
sem autor, país ou “ mais além”.
Rasgas os teus véus, se luz pre-sentes
em sorrisos devolvidos de alegria.
Ergue encontros sábios a cada dia
sê livre de quereres e não quereres.

Ama apenas porque amar é estar presente
ama apenas porque de amar és capaz.

Este amor maior que desconheces
livre de muros, de esperanças, de objectos
não morre nem renasce, não decai nem se desfaz

vive a teu lado, és tu, sempre o serás!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017



Bilhetes de amor

Mais logo, regressarei
de mansinho,
trazendo o que de ti levo
no coração
e que contigo fica:

O nosso amor.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017



Eu e o Tempo

Se eu fosse o Tempo
deixava no passado o que passou
e no futuro o que lhe pertence.
Ficava apenas com o presente
e assim podia ver a flor na flor,
o riacho no riacho,
o sorriso de quem passa,
ou a sua dor.
Podia ouvir a voz do vento
e brilhar o brilho de tudo o que é
no momento presente.

Se eu fosse o Tempo
deixava no passado o que passou
e no futuro o que lhe pertence.
Ficava apenas com o presente
e o embrulhava com fitas coloridas
com que presenteava tudo o que é,
e assim viveria na não ausência
e no tudo haver,
na frescura e na beleza do momento,
o único que há para viver.

Se eu fosse o Tempo
deixava no passado o que passou
e no futuro o que lhe pertence.
Ficava apenas com o presente
e assim podia ver com os olhos,
ouvir com os ouvidos,
sentir com o coração
e depois, num belo jogo de crianças
misturá-los todos,
na pureza do não julgamento.






segunda-feira, 27 de março de 2017




Ruas sem saída


Caridade vivia no fundo da rua
lá onde ninguém ia,
rua vazia, rua vadia.
Rua perdida no meio do nada
de morte abraçada.
Rua estilhaçada.

Numa noite de inferno, 
cinzenta e molhada
chega à tal viela,
entra p’la janela,
o vento Suão, 
anunciando o  verão.

Caridade sorriu, 
medrou e saiu para o abraçar.
Ele assim o fez:
Afagou-lhe a tez,
soprou-lhe ao ouvido
belas esperanças
sonhos e mudanças,
no fundo da rua.

Recetiva e nua
deixa Caridade
Suão embalar
seu corpo ondulante.
Bailando flutua,
sorri para a lua
parte p’ra voltar.

Suão carinhoso
terno e dengoso
traz-lhe o que é preciso,
para alegre a ver!
Um amor assim
caridade em mim,
o que for em vós,
cheiro de alecrim
flor de jasmim
é pátria dos sós.

E ao fundo, a rua,
lá onde ninguém ia,
não mais foi vazia.
Escolheu ser vadia
e no meio do nada
tudo ser um dia.

2014.01.06